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Livros didáticos polêmicos trazem orientação política, familiar e sexual


0709/2013 07h21

Orientação política, familiar e sexual no livro didático...

É provável que o MEC tenha enviado estes mesmos livros para outras prefeituras e também estados.

Orley José da Silva
 
Orley José da SilvaOrley José da Silva
As unidades escolares da Secretaria Municipal de Educação (SME) da Prefeitura de Goiânia receberam no começo deste semestre letivo os livros recomendados pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), do Ministério da Educação (MEC). É provável que o MEC tenha enviado estes mesmos livros para outras prefeituras e também estados. Os professores de cada disciplina escolhem entre livros de visão parecida, uma coleção que lhes sirva de apoio durante as aulas nos próximos anos, a partir de 2014. Pelo menos em Goiânia, esta escolha tem sido dolorosa para os professores que se sentem inconformados com a linha de doutrinamento político e ideológico das editoras participantes deste Programa. Elas reproduzem, em suas obras, a compreensão governamental de sociedade e educação, que é de acordo com intérpretes do marxismo e do relativismo filosófico. Pelo que se percebe, o Governo tem a escola como um dos lugares privilegiados para a execução do seu ambicioso projeto de subjetivação coletiva, que visa construir uma sociedade socialista, secularizada e relativista.
Há em alguns destes livros didáticos uma pretensa vontade de direcionar a formação política do aluno quando textos e imagens institucionais divulgam programas sociais do Governo Federal; exaltam conhecidas figuras políticas do socialismo brasileiro e estrangeiro; relê períodos econômicos e históricos da nação; sublima nomes importantes do Governo; ironiza partido político oposicionista e coloca em dúvida a capacidade de decisão de conhecidos membros da oposição. Considerando a proximidade de um pleito eleitoral, pode-se entender que a promoção de personalidades do Governo, da sua base política e do modelo socialista e sustentável de governar, e o desmerecimento de opositores, mesmo que implicitamente, tenham a intenção de formar opinião política, partidária e ideológica na escola.
A compreensão da ética, da moral e dos costumes em conformidade com ideias relativistas e seculares contemporâneas, além da interpretação que o marxismo emprega ao laicismo são valorizadas nesses livros didáticos. Estas influências, inclusive, mudam o conceito de laico que até um passado recente era caro também às principais democracias ocidentais, de onde emprestamos o sentido do termo constante na Constituição de 1988. O Governo incentiva a ressignificação de conceitos para adequá-los à sua ideologia.
Chega-se, assim, a um relativismo caolho porque ofusca e também apaga valores fundamentais do cristianismo que insistem em permanecer na sociedade. Em anos anteriores, estes valores foram diminuídos nos livros didáticos, mas nos livros do próximo ano, estes sinais estarão ainda mais diluídos. Ao valorizar o esotérico e o místico, vestidos de maneiras alternativas de espiritualidade e cultura, permite subentender que as obras escolares transitam num delicado terreno de compensação e/ou substituição simbólico-ideológica.
É natural que as famílias confiem na isonomia da escola pública para respeitar os fundamentos que as sustentam. Mas é bom elas se prepararem para a possível quebra desta confiança pela chegada em suas casas de livros com uma nova configuração de família. Elas também terão que lidar com a censura e o enfrentamento dos filhos doutrinados pela escola em discursos diferentes aos seus, relacionados ao corpo, à família e ao comportamento.
Há livros, por exemplo, que trocam o visual comportado das pessoas nas imagens ilustrativas pelo estilo diferente das tribos urbanas ou sociedades alternativas. E é esta imagem de corpo que os autores tentam popularizar e normalizar, mesmo sabendo que esta imagem de corpo não predomina entre os jovens da periferia conservadora, em se tratando de Goiânia. Mas o MEC tem se acostumado a apresentar novidades.
Em abril de 2011, pressionada politicamente pelas bancadas católica, evangélica e da família, a Presidência da República vetou a distribuição para as escolas do material de auxílio didático produzido pelo MEC, através do Programa Escola Sem Homofobia. Apelidado de “kit gay”, este estojo era composto de três vídeos, além de um guia para os professores, e com aplicação restrita aos alunos do ensino médio. Essa reação contrária não se deu em função da temática em si e nem pela falta de reconhecimento do problema, mas pela maneira que o assunto foi abordado. Na oportunidade, a Secretaria Geral da Presidência da República prometeu às representações políticas que, dali em diante, toda edição de material que versasse sobre “costumes” passaria antes pelo olhar da Presidência e por um amplo debate com a sociedade civil.
Esse Programa de 2011 que era apenas um apêndice do material pedagógico enviado às escolas e tratava pontualmente daquilo que se chamou de combate ao preconceito contra a pessoa homossexual, já foi capaz de deixar a sociedade frustrada. Em vista disso, é possível imaginar a perplexidade das famílias quando souberem que o MEC ousou, além de reeditar o projeto, sinuosamente inserir nele o delicado tema da configuração familiar, já para o ano de 2014. Também não se poderá estranhar a indignação das famílias ao se certificarem, que desta vez, crianças a partir dos 8 anos e adolescentes do ensino fundamental poderão ser formados por esses livros.
Outra novidade é que em 2011 bastou ao MEC retirar o “kit gay” para, assim, atender a determinação presidencial, sem prejuízo para os outros itens didáticos distribuídos para as escolas. A mesma determinação não poderia ser cumprida com facilidade com relação ao material didático do próximo ano. Os livros foram concebidos de maneira a tornar difícil qualquer modificação pontual, a menos que se aborte toda a concepção didática e pedagógica. Os temas homossexuais e familiares apresentam-se, agora, dissolvidos nas entranhas de algumas disciplinas. Um questionamento que pode ser feito é se a quebra da promessa governamental de não promover “costumes” sem uma ampla discussão pela sociedade é por conta do MEC ou tem o endosso velado do Governo.
Um aspecto relevante encontrado em alguns destes livros, é o esforço deliberado para a desconstrução do modelo tradicional de família nuclear: pai, mãe e filhos. Um dos livros que compõem a coleção do Plano Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (PNAIC) trata do tema das famílias e é destinado a crianças com 8 anos de idade. O livro começa apresentando em duas páginas abertas o desenho de uma família composta pelo pai, a mãe, uma menina e um menino. Por cima da imagem, a inscrição: “Muitos anos atrás, a maioria dos livros sobre famílias eram assim:” A vestimenta de caipira do homem, a simplicidade das roupas e calçados, os animais de estimação e a casa em meio ao verde, sugerem um ambiente rural. A união da imagem com o enunciado permite que se trata de uma família à moda antiga e, portanto, desatualizada. Na página seguinte, com vestimenta e aspectos urbanos, duas mulheres cuidam de uma garotinha e dois homens cuidam de um garotinho. Na parte superior, o enunciado: “Algumas crianças têm duas mães ou dois pais.” Uma leitura possível para a junção da imagem e do texto escrito, é que se trata de uma formação moderna de família.
Sobre o PNAIC, trata-se de um acordo firmado entre o Governo Federal e todos os secretários estaduais de educação para alfabetizar toda criança até os 8 anos de idade e resolver um dos mais preocupantes problemas da educação básica. O Governo espera receber a adesão de 5,3 mil municípios e com recursos e apoio técnico do MEC, ministrar cursos de formação continuada em leitura e escrita para 360 mil professores alfabetizadores, além de comprar 60 milhões de livros. O que se questiona neste importante Programa é o porquê de se inserir nele a deliberada desconstrução do conceito de família tradicional a partir de crianças tão pequenas, contrariando os valores da maioria das suas famílias.

Os professores de cada disciplina escolhem entre livros de visão parecida, uma coleção que lhes sirva de apoio durante as aulas nos próximos anos, a partir de 2014."

— Orley José da Silva

Para alunos um pouco maiores, de 12 anos de idade, há um livro de espanhol para o 6º ano, no capítulo que fala sobre a família, logo na página de apresentação há o modelo do interfone de um prédio de quatro andares composto de dois apartamentos por andar. Ao lado do número do apartamento lê-se a descrição do tipo de família que ali habita. No apartamento 101, moram “Dos mujeres, su hija.”, cuja tradução é: “Duas mulheres, com a filha delas.” Na base do interfone, surge a inscrição: “No hay familias modelo, simplemente, modelos de família.” que em português é: “Não há famílias modelo, simplesmente, modelos de família”. Na página seguinte, quando o texto passa a discorrer sobre as características familiares, há imagens iconizadas representando alguns tipos de família e, entre eles, o de duas mulheres de mãos dadas, com uma delas grávida. Pelo que se conhece das uniões homoafetivas femininas, subentende-se que uma das possibilidades para a gravidez desta mulher seja a inseminação artificial.
No mesmo livro, na parte que oferece subsídios didáticos e pedagógicos ao professor, há a seguinte orientação: “Segun la Red Nacional Católica de Jóvenes por el Derecho a Decidir (RNCJDD), estos grupos conservadores insisten em afirmar la relación monogâmica heterosexual, desde que se unen em matrimonio hasta que mueren, como única opción para formar famílias, ignorando otros modelos de família, por ejemplo: la presencia femenina como cabeza de la família con hijas e hijos, y personas del mismo sexo con hijas e hijos.” Que traduzindo para o português fica assim: “Segundo a Rede Nacional Católica de Jovens pelo Direito de Decidir (RNCJDD), estes grupos conservadores insistem em afirmar a relação monogâmica heterossexual, desde que se unem em matrimônio até a morte, como única opção para formar famílias, ignorando outros modelos de família, por exemplo: a presença feminina como cabeça de uma família com filhas e filhos, e pessoas do mesmo sexo com filhas e filhos.”
A escola pública é frequentada por sujeitos das classes populares cujas famílias são hegemonicamente conservadoras e cristãs. Sabedores disto e da possibilidade de rejeição à nova configuração de família apresentada pelo livro didático, os autores apropriam-se de um discurso que embora esteja presente entre os conservadores, alinha-se ao pensamento deles. Não é sem propósito, portanto, que a equipe editorial busca este argumento aliado dentro da formação discursiva católica. É sabido que a Igreja Católica não compartilha das ideias deste seu grupo de jovens, a RNCJDD. Essa premissa utilizada pelo livro didático, no entanto, tem valor simbólico importante.
Ao mostrar a existência de vozes que se opõem dentro do próprio discurso de autoridade que é responsável, em grande parte, pela formação moral do aluno, instiga-o a questionar e/ou combater estes valores.
Em um dos livros de Língua Inglesa para o 6º ano, no capítulo dedicado à família, há fotografias de modelos de família, inclusive uma com dois homens, e um deles segura um bebê. Esta foto sugere uma relação homoafetiva masculina que adota uma criança. Em outro livro de Língua Inglesa também para o 6º ano, na mesma foto aparecem duas mulheres com uma criança e dois homens com duas crianças. Pelo contexto, é possível inferir que se trata de relações homoafetivas feminina e masculina, com suas crianças adotadas. No mesmo livro, nos exercícios, há uma parte que pergunta sobre os tipos de família para o aluno marcar e uma das respostas é esta: “( ) Three different families: father, mother, and son; mother, father, and three kids; two fathers and an adopted baby.” Traduzido para o português fica assim: “( ) Três diferentes famílias: pai, mãe e filho; mãe, pai e três crianças; dois pais e um bebê adotado.”
Um dos livros de Língua Inglesa para o 9º ano, cujos alunos têm em média 15 anos de idade, tempo em que as escolhas para a vida estão sendo definidas, na parte de subsídio didático e pedagógico ao professor há a seguinte orientação para tratar dos assuntos mudança de sexo, mudança de nome e opção pela vida homossexual: “A relação possível com o tema Orientação Sexual, na questão da identidade, pode ocorrer durante a aula ao apresentar, por exemplo, casos de pessoas que se submeteram a operações de mudança de sexo e tiveram seus nomes alterados. Ao discutir temas delicados como esse, o professor pode optar por fazê-lo a partir de casos de pessoas famosas. (...) ao falar sobre os casos de pessoas que mudaram de sexo em tempos atuais, ou que, mesmo sem se submeterem à operação, optam por viver com as características do sexo oposto, incluindo a identidade, pode-se verificar se a História traz casos parecidos com esses no passado.” Estes temas que não são considerados disciplinas, mesmo assim estão presentes nelas porque as atravessam. Portanto, de maneira interdisciplinar, espera-se que a escola trabalhe ética, pluralidade cultural, meio ambiente, saúde, trabalho e consumo, orientação sexual, e assuntos de interesse regional, respeitando-se as características sócio-culturais dos estudantes. O problema acontece justamente neste ponto. Os temas são abertos e passíveis de interpretações variadas e podem ser direcionados para qualquer ideologia, dependendo da formação discursiva que os explora. No presente caso, o MEC optou pelo discurso que contraria a crença, os valores e a ideologia predominantes na população. Quanto a Prefeitura de Goiânia, ela não considerou que a maioria das crianças atendidas pelas suas unidades escolares vem de lares de tradição cristã, o que é atestado pelo próprio IBGE.
Vale salientar que a presente crítica não se vê ignorante quanto aos temas científicos, mesmo porque não contesta verdades da Ciência e nem o conteúdo curricular das disciplinas. O problema que levanta diz respeito à abordagem e aplicação de alguns dos temas transversais em livros didáticos recomendados pelo MEC para o Ensino Fundamental da escola pública, a partir do próximo ano. Este comentário também não diminui a importância dos temas transversais constituídos pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s), por entender que eles são necessários à formação do educando para o exercício da cidadania. Entende, inclusive, que temas como violência contra a criança e o adolescente, o trabalho infantil, bem como a questão das drogas, poderiam ter sido mais explorados nestas coleções. Embora tenha levantado os pontos acima, esta crítica não se julga preconceituosa quanto ao modo de vida das tribos urbanas e de outros grupos minoritários em comparação com a maioria. Outrossim, é defensora ardorosa da liberdade para ações afirmativas destes grupos, do respeito e consideração que fazem jus como cidadãos. Coloca-se contra, porém, as ações propagadoras de costumes na escola pública, não convencionados socialmente, julgando que é função da família e não do Estado orientar sobre padrões de comportamento.
Lamentavelmente, o modelo de educação pública para nossas crianças e jovens tem sido formatado com exclusividade por iluminados técnicos do MEC, de secretarias de educação e universidades. E quase sempre escoram no status de superioridade do discurso acadêmico, que eles mesmos arvoram e não relativizam. Creem na suficiência desse discurso para teorizar, prescrever e impor conteúdos por vezes contraditórios e dissociados dos reais anseios da coletividade. Com arrogante autonomia, incluem e excluem colaboradores. Neste tempo mesmo, em que importantes políticas educacionais estão sendo discutidas no país, com influência direta no currículo escolar, os tecnocratas silenciam as vozes das maiorias, porque as consideram conservadoras, retrógradas, direitistas, tradicionais e reacionárias. Preferem ouvir e atender tão somente as vozes das minorias, para quem é ajuda vanguardista, democrática, libertária e progressista.
Os discursos que se sentem preteridos nas escolhas educacionais para o país, no entanto, não devem se eximir do direito de opinar e participar para uma real democratização do conhecimento na escola. E neste momento em que as escolas do país estão escolhendo os livros para o próximo ano, é importante que o cidadão comum e as entidades que representam os arraigados valores familiares visitem as escolas públicas e conheçam estes livros. Folheiem, reconheçam, digiram, analisem e opinem sobre eles. Deem preferência ao exemplar do professor porque contém orientações didáticas e pedagógicas. Embora o presente texto tenha preferido não mencionar nomes de autores e editoras, estas informações podem ser confirmadas pelo manuseio e exploração das obras.
Ao contrário do que diz o MEC, estas mudanças trazem inquietação entre os professores, sim. Por mais que as secretarias municipais, estaduais e o MEC tenham se esforçado para oferecer-lhes cursos e palestras nos últimos anos com a finalidade de convencê-los dessas novas ideias. É de se esperar que a proporção dos educadores contrários e favoráveis às mudanças não seja diferente do percentual encontrado na população. E, se estes livros são capazes de chocar professores e familiares numa grande cidade, a exemplo de Goiânia, não é difícil imaginar a dimensão do impacto que suas ideologias poderão causar às famílias das pequenas cidades e povoados do interior brasileiro, mais notadamente no sertão, cerrado, caatinga, pampa, pantanal, ribeirinhos amazônidas, além de calungas e indígenas.
Mas o Governo parece querer, acreditar e contar com a modalidade de revolução que se opera pela transformação do pensamento iniciada e fortalecida na(pela) universidade pública. E ele também parece julgar que este é o momento de dar prosseguimento a mesma construção ideológica em curso na escola pública, valendo-se dos recursos humanos e de conhecimento da sua universidade. Deve ser por isso que ele investe no aparelhamento ideológico destas duas instituições públicas para que elas alavanquem as mudanças pretendidas na mente da sociedade. Inclusive, o viés de abordagem dos temas transversais que aparece nos livros é uma síntese de pesquisas, discussões, congressos, simpósios e seminários da universidade. E em muitas destas reuniões, com pelejas de um lado só, além de autoritárias, visto que nem sempre oferecem assento para as divergências. A tendência é que a influência dos livros didáticos patrocinada pelo MEC e apoiada por prefeituras como a de Goiânia, alcance também as escolas particulares, até mesmo as confessionais. Isto porque o milionário mercado dos livros didáticos e paradidáticos vive ao sabor da conveniência e segue tendências mercadológicas, mesmo que elas movimentem a sociedade para lugares estranhos.
Orley José da Silva, é professor em Goiânia e mestre em letras e linguística (UFG)

Obs.: Este artigo foi publicado originalmente em "A tribuna news" de Campo Grande - MS.
http://www.atribunanews.com.br/artigos/orientacao-politica-familiar-e-sexual-no-livro-didatico-orley-jose-da-silva

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