Pular para o conteúdo principal

Governos FHC, Lula e Dilma são comparados em livro didático/2016


Este livro compara os dois governos de Fernando Henrique Cardoso, com os dois de Lula e o primeiro de Dilma Rousseff. Sobre o primeiro mandato de FHC os autores dizem que "A economia se manteve estável. O programa de privatizações continuou de forma acelerada; entre as estatais vendidas incluíram-se empresas de telecomunicações, energia elétrica, mineração e setor financeiro."

No livro do professor há a seguinte recomendação de acréscimo: "Como exemplo de privatização, é possível citar a venda da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), da Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer) e a divisão do sistema Telebrás."

O livro elege e enumera outros pontos negativos desse governo além da venda de estatais: apagão de energia, aumento das dívidas interna e externa, crescimento do desemprego, desigualdade na distribuição de renda, corrupção no processo da reeleição e favorecimento aos grupos financeiros.

A mensagem que se pode inferir do texto é que o governo FHC, embora tenha conseguido manter a estabilidade econômica, dedicou-se a vender empresas estatais, aumentar o desemprego, acentuar a desigualdade social e privilegiar os bancos.

Ao falar dos governos Lula, o livro inicia assim: "Ele foi o primeiro presidente originário das camadas mais pobres da população." Em seguida, diz que o maior desafio dele foi combater a miséria e o desemprego. Para tanto, "buscou garantir à população mais carente direitos essenciais."

Além de oferecer "bolsas de estudo para jovens pobres em universidades particulares", o presidente Lula combateu a seca na região Nordeste e promoveu a integração nacional. 

E no último parágrafo, afirma que "o governo Lula teve como principais marcas a retomada do crescimento do país, a redução da pobreza e da desigualdade social, a estabilidade econômica, o fortalecimento do país nas relações internacionais."

O livro do professor, como subsídio argumentativo sugere ao professor "comentar com os alunos que o Bolsa Família ajudou, de certa forma, na educação e na saúde das crianças, pois as famílias beneficiadas pelo programa eram obrigadas a manter os filhos na escola e levá-los aos postos de vacinação."

Não se percebe no texto a boa vontade em registrar pontos negativos dos governos Lula, a exemplo do mensalão, conforme se fez no relato dos governos FHC. Antes, os sublimou: "Alguns escândalos políticos prejudicaram a imagem do governo, no entanto os bons resultados obtidos possibilitaram que, em 2006, Lula fosse reeleito para seu segundo mandato."

Dilma, por sua vez, é apresentada como "a primeira mulher presidente do país." (com destaque em negrito pelo próprio livro, para marcar a importância do acontecimento)

Comparado aos governos Lula, o governo Dilma dá continuidade aos programas sociais como o Bolsa Família e ainda acrescenta outros; aumenta o nível de emprego e o valor do salário mínimo; diminui o desmatamento da Amazônia; reduz a pobreza, as desigualdades sociais e a mortalidade infantil.

Os autores isentam a presidente Dilma dos pontos negativos de seu governo, creditando-os às circunstâncias de percurso. A queda no crescimento do país, por exemplo, é em virtude da crise mundial e pela necessária demissão de ministros envolvidos em corrupção. 

No livro do professor, há uma orientação para o professor "Comentar com os alunos que, o Plano Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, em 2014 se conseguiu no Brasil a primeira geração de crianças sem fome, quebrando o ciclo de pobreza que há séculos domina a história do país."

A leitura cuidadosa das sínteses que caracterizam os três governantes mostra a tendência dos autores em escolher e interpretar aspectos políticos, sociais e econômicos desses períodos. Tanto as escolhas quanto a interpretação deles podem ser questionadas, com a suspeita, inclusive, de promover nos alunos a formação de opinião favorável aos presidentes Lula e Dilma e desfavorável a FHC. 

Neste caso, especificamente, o direcionamento calculado da opinião de alunos do 5º ano do ensino fundamental, com 10 anos de idade. 

Não se percebe, na construção discursiva dos textos, que o esforço seja pela busca do equilíbrio ou isonomia na exposição e análise dos procedimentos desses governos. Os próprios subsídios ao professor, reforçam esta suspeita. 

A necessária busca pelo ideal de neutralidade e a justa apresentação dos fatos com suas diferentes interpretações é que possibilitam o surgimento de um aluno com autonomia de pensamento. Ensino tendencioso e militante, além de produzir símiles, violenta o direito de livre consciência do aluno.

Orley José da Silva, é professor em Goiânia, mestre em letras e linguística (UFG) e mestrando em estudos teológicos (SPRBC)  

Artigos relacionados:

Maria do Rosário está no livro didático das crianças:

Lula e Fidel Castro exemplos de oradores para as crianças:

Dilma é melhor candidata que Serra e Marina:









Comentários

  1. Muito bom esse livro, só diz as verdades,todos governos tem o lado positivo e negativo

    ResponderExcluir
  2. Doutrinação clara, qualidade crítica do texto baixíssima

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Quando a família do aluno processa a escola por danos morais

Conheça dois modelos de "notificação extrajudicial" que poderão ser usados no relacionamento entre a família e a escola, no sentido de proteger o aluno especialmente contra a doutrinação política, partidária e de gênero.




O Procurador da República Guilherme Schelb desenvolveu um modelo de "notificação extrajudicial" para que pais e/ou responsáveis protejam os filhos contra o ensino da Ideologia de Gênero pelas escolas. Por este simples documento, escolas e professores são notificados pelas famílias de processá-los por danos morais pelo ensino dessa ideologia que visa, através da educação, promover uma revolução sexual e familiar. Isto a partir das crianças e adolescentes.
Caso professores e escolas se recusem a assinar o documento, há duas atitudes que os pais e/ou responsáveis poderão tomar para que o documento tenha validade jurídica. A primeira, é dirigirem-se ao Cartório de Registro de Títulos e Documentos com o nome e endereço da escola, para que a escola seja c…

Tábata Amaral aparece em livro didático do MEC de 2020

Esta é a primeira de uma série de 14 postagens que este blog realiza sobre ocorrências "questionáveis" nos livros didáticos reconhecidos pelo MEC/2020, anos finais do Ensino Fundamental, com validade para um período de 4 anos: 2020 a 2023. 



O livro de Língua Inglesa "BECOME", da Editora FTD, do PNLD 2020, cuja coleção tem o código 0357P20092, é destinado ao 7º ano do Ensino Fundamental. Ao longo das páginas 18-31, apresenta uma lição que trata da importância da Língua Inglesa para a inserção social e a formação de cidadãos globais, em consonância com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
edital de convocação 01/2018 SEB/MEC  deu origem a este livro. A finalização do processo de escolha deu-se por meio da Portaria nº 27/2020 SEB/MEC PNLD 2020. Um edital que teve início no governo Temer e terminou no governo Bolsonaro.
Leia:  Editais de materiais didáticos que se estendem até 2023
O livro propõe ao aluno não somente a leitura mas também a reflexão sobre perfis public…

ONG feminista "Católicas pelo direito de dedicir" em livro didático do MEC para 2020

Esta é a quarta de quatorze postagens que este blog apresenta sobre alguns temas abordados pelos livros didáticos recomendados pelo MEC (PNLD/2020) para os anos finais do Ensino Fundamental  (6º ao 9º ano), com validade de quatro anos: 2020 à 2023. 
Leia antes as três postagens anteriores ( a 1ª , a 2ª  e a 3ª. )

O movimento feminista nos livros didáticos de 2020
Trata-se da primeira remessa de livros em conformidade com a versão homologada (dez/2017) da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para a Educação Infantil e o Ensino Fundamental, crianças de 0 a 14 anos. 



O objetivo desta postagem é mostrar a presença da ONG feminista Católicas pelo Direito de Decidir no currículo dos anos finais do Ensino Fundamental, em páginas de um livro de Língua Inglesa   do PNLD/2020.

É de conhecimento público que esta ONG não conta com o apoio oficial da Igreja Católica Romana. Composta por um grupo minoritário de autodeclarados católicos, tem como pauta principal a defesa do aborto.

No entanto, no seio da…

A BNCC em um voo de galinha da direita brasileira

No final de 10 anos, praticamente toda a população brasileira abaixo dos 25 anos terá sido escolarizada em conformidade com os desdobramentos da Escola de Frankfurt), o universalismo cultural e a Agenda 2030 de desenvolvimento sustentável da Unesco.



Prevista em Lei,[i] a Base Nacional Comum Curricular (BNCC),[ii] obrigatória para a Educação Infantil e o Ensino Fundamental (crianças de 0 a 14 anos) de todas as creches e escolas públicas e privadas, com validade a partir de janeiro de 2020, foi aprovada pelo Conselho Nacional de Educação (CNE)  no dia 15 de dezembro de 2017 e homologada cinco dias depois[iii] pelo Ministro da Educação (MEC), Mendonça Filho.
Os dois anos seguintes à homologação[iv] foram dedicados para: 1) ajustar os currículos de todas as creches e escolas do país à BNCC; 2) adequar os conteúdos dos materiais didáticos; 3) mudar as avaliações institucionais da Educação Infantil e do Ensino Fundamental; 4) reformular os currículos de licenciatura das faculdades e universid…

Engajamento político e militância no livro didático do MEC de 2020

O livro didático de 2020 amplifica e normaliza em sala de aula as discussões políticas e ideológicas. Mas vai além: com a alegação de despertar no aluno a consciência crítica, incentiva-o a engajar-se em movimentos sociais, lutas políticas e de classe. 





Com a atitude de fundamentar a crítica política e social em sala de aula infanto-adolescente, em conformidade com a Teoria Crítica, o PNLD/2020 dificulta iniciativas contestatórias da sociedade civil, a exemplo das associações de pais e do Escola Sem Partido. 




É importante observar a intencionalidade do jogo semiótico e semântico presente na construção dos capítulos dos livros. 
Não é aleatória a escolha de bandeiras, símbolos, cores, gestualidades das pessoas,  imagens e passeatas que se identificam com cenários de manifestações públicas organizadas pela esquerda política brasileira e internacional.
Também não é sem propósito ideológico a seleção de termos e palavras encontrados nos livros didáticos: militância, ativismo, cidadão crítico,…

Fake news no livro didático do MEC para 2020

Esta é a segunda de quatorze postagens que este blog apresenta sobre alguns temas abordados pelos livros didáticos recomendados pelo MEC (PNLD/2020) para os anos finais do Ensino Fundamental  (6º ao 9º ano), com validade de quatro anos: 2020 à 2023. 


Leia: Editais de materiais didáticos que se se estendem até 2023

Trata-se da primeira remessa de livros em conformidade com a versão homologada da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
Esse conjunto de postagens tem sido feito exclusivamente com livros de Língua Inglesa e Língua Portuguesa. Os livros das demais disciplinas serão analisados em outra oportunidade. 
Os livros são organizados em capítulos. Cada um deles, além de contemplar um aspecto gramatical é regido por um tema específico.  
Alguns dos temas recorrentes nos capítulos do 6º ao 9º ano são: fake news, aquecimento global, globalização, multiculturalismo, interculturalismo, gênero, feminismo, racismo, discriminação, cidadania global, direitos humanos, engajamento em protestos polít…

O movimento feminista no livro didático do MEC para 2020

Esta é a terceira de quatorze postagens que este blog apresenta sobre alguns temas abordados pelos livros didáticos recomendados pelo MEC (PNLD/2020) para os anos finais do Ensino Fundamental  (6º ao 9º ano), com validade de quatro anos: 2020 à 2023. 
Trata-se da primeira remessa de livros em conformidade com a versão homologada (dez/2017) da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para a Educação Infantil e o Ensino Fundamental, crianças de 0 a 14 anos. 
O objetivo desta postagem é mostrar a presença do feminismo no currículo dos anos finais Ensino Fundamental, através de páginas escolhidas em 10 livros diferentes de Língua Inglesa e Língua Portuguesa do PNLD/2020.
Esta postagem, neste momento, não analisará pontualmente as páginas e imagens apresentadas, deixando essa tarefa por conta do leitor e dos especialistas em educação.  
A observação da existência de um modelo gradativo de ensino que vem desde a Educação Infantil permite supor que, ao final do Ensino Fundamental, os alunos terão c…

O que mais incomoda o conservador na BNCC?

O Censo Escolar (INEP/MEC, 2018) conta 36 milhões de alunos matriculados na Educação Infantil e no Ensino Fundamental, crianças de 0 a 14 anos. Estes dois grupos de alunos representam aproximadamente 17% da população brasileira.  
Em 10 anos, não será surpresa se a população abaixo dos 25 anos estiver próxima aos valores políticos e sociais encontrados em segmentos da Escola de Frankfurt, ao universalismo cultural e à Agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável da Unesco.
A BNCC (da Educação Infantil e o Ensino Fundamental) organiza-se, implícita e explicitamente, com pelo menos essas correntes filosóficas e pedagógicas: materialismo dialético, teoria crítica, socioconstrutivismo, sociointeracionismo, relativismo, evolucionismo, desconstrutivismo, multiculturalismo, interculturalismo e politicamente correto. 

Portanto, por mais que os governos direitistas avancem na economia, justiça, segurança, infraestrutura e no comércio... Por mais que ressaltem o nacionalismo e os valores conserv…

Quem são os presidentes e os ministros da BNCC?

O processo de efetivação da BNCC (da Educação Infantil e do Ensino Fundamental) nos currículos escolares, no material didático e na formação dos professores passou por três presidentes da República e seis ministros efetivos da Educação, desde 2015.
Ainda no governo Dilma Rousseff, a primeira versão da BNCC enfrentou severas críticas e a acusação de alinhamento político com o "progressismo". 

Depois do impeachment, já de posse da segunda versão, os seus principais promotores empreenderam esforços argumentativos de proteção ao documento. Isto com o objetivo de fazer distanciar as suspeitas de ligação do currículo básico com políticas de governo ou de partido político. 

O discurso insistentemente avocado, da previsibilidade em Lei, passou a sustentar tanto a necessidade de pressa para sua efetivação quanto a tese de que a base curricular seria uma política de Estado.

Resumo das principais ações empreendidas por ministros efetivos da Educação e secretários executivos do Ministério d…

Contos de magia negra, demonismo e assassinato para alfabetização e letramento na escola pública

Um livro de contos macabros, com requintes de terror e pânico para crianças em fase final de alfabetização e letramento de escolas públicas, vem recebendo severas críticas de pais, professores e políticos. Essa reprovação acontece porque, na intenção deliberada de provocar medo no leitor, os organizadores recorreram a relatos de magia negra, bruxaria, feitiçaria, sacrifício com sangue humano e de animais, aparição de espíritos, demonismo, maldade com pessoas e animais, além de assassinatos.
O programa escolar de leitura e escrita que resultou no livro de contos BÚ! Histórias de Medo e Coragem, é uma iniciativa da empresa espanhola de energia, Endesa Brasil, em parceria com o Ministério da Cultura e publicado com ajuda da Lei de Incentivo à Cultura. Desde o começo deste ano, a obra é distribuída para escolas públicas e utilizada no processo de alfabetização e também letramento de crianças do 4º e 5º anos do Ensino Fundamental.
No ano passado, a empresa realizou um concurso literário em 5…