quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Evocação de espírito e possessão em literatura infanto-juvenil do MEC


Evocação é o título do livro escrito por Márcia Kupstas, com prefácio do novelista Walcyr Carrasco. Trata-se de uma obra do gênero terror, com a ocorrência de eventos sobrenaturais, destinada ao público infanto-juvenil. 



Este livro foi distribuído no começo do ano para escolas públicas de todo o país, visto que integra o acervo de livros literários selecionados em 2013, pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) e pelo Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE). De acordo com a classificação feita pelo Ministério da Educação (MEC), serve do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental, ou seja, atende alunos que tenham entre 11 e 15 anos.

Ele conta aventuras de 5 adolescentes entre 12 e 17 anos, durante as férias escolares numa casa de praia do litoral norte paulista. Uma das aventuras foi brincar de consultar o sobrenatural com o jogo do copo ou tabuleiro ouija. A brincadeira, porém, fugiu ao controle do grupo com a aproximação do suposto espírito de um jovem surfista e a ocorrência de outros fenômenos sobrenaturais. 


O tabuleiro ouija que foi utilizado pelos adolescentes, com respostas sim ou não escritas em papel e o copo servindo de indicador, é uma variante do mesmo instrumento de superfície plena, letras, números, símbolos e indicador móvel utilizado pelas irmãs americanas Kate e Margaret Fox para se comunicarem com espíritos.



O livro trata de questões filosóficas e espirituais complexas como o destino, livre arbítrio, morte e pós-morte, possessão, necromancia, mediunidade, tudo de acordo com a visão da doutrina espírita. Essas questões são resolvidas ora pela narradora-personagem Magda ou pela sua avó Magdalena, professora universitária, pesquisadora e parapsicóloga.


Considerações

No anexo 1, há o testemunho da narradora-personagem dizendo que sua iniciação em experiências sobrenaturais deu-se aos 15 anos. A personagem mais nova, tem 12 anos. Coincidentemente, essa é a faixa etária de leitores recomendada pelo MEC. 

Cabem as perguntas: será que os alunos não buscarão reproduzir a experiência sobrenatural dos personagens? Quais as possíveis consequências dessa eventual experimentação, visto que trata-se de prática religiosa sujeita a efeitos concretos?

Nos anexos 2 e 3, consta a suposta conversa do grupo com o espírito do jovem surfista. 

Cabe a pergunta: qual o impacto que esta possibilidade de evocação de espírito pode ter na crença de um aluno-leitor que pertença a uma família que não acredita na comunicação dos vivos com os mortos?

Nos anexos 4 e 5, acontece o desfecho da história e onde são tratadas as grandes questões doutrinárias do livro. Uma forte defesa da doutrina espírita. 

Cabe a pergunta: embora possa ser considerado considerado ficcional e literário, não teria este livro uma função prioritariamente proselitista? 

A própria autora, em entrevista publicada no mesmo livro, admite que acredita na realidade dessas manifestações espiritualistas. Ela, no entanto, pondera que é possível aos leitores fazerem outra interpretação, creditando as manifestações sejam fantasias e no máximo, obra de fantasmas. 

Estes questionamentos se baseiam  no esforço deliberado das diretrizes educacionais públicas brasileiras pelo apagamento dos valores culturais das tradições judaica e cristã.  Os livros didáticos e paradidáticos quase não fazem mais referência à religiosidade cristã, por exemplo.  Por outro lado, privilegiam outras manifestações religiosas, principalmente aquelas ligadas à Nova Era e as espiritualistas. 

Essa política medida e consciente de desconstrução, apagamento e substituição religiosa através da escola tem trazido desconforto aos mais de 80% de cristãos (católicos e evangélicos). E é a esse grupo majoritário que pertencem as crianças, adolescentes e jovens das escolas públicas. 


Orley José da Silva, é professor em Goiânia, mestre em letras e linguística (UFG) e mestrando em estudos teológicos (SPRBC)





Anexos (complementam as informações do texto)

Anexo 1
Anexo 2


Anexo 3

Anexo 4
Anexo 5









terça-feira, 14 de outubro de 2014

Lula e Fidel são exemplos em livros didáticos do MEC

Lula e Fidel Castro ilustram conteúdos em dois livros didáticos de Língua Portuguesa para o Ensino Fundamental. Lula estampa o conteúdo de "expressão oral" em livro para o 6º ano (*) e Fidel, o conteúdo de "reconstrução dos sentidos do texto" em livro para o 9º ano (**).

No primeiro caso, o aluno aprende a usar estratégias de progressão textual, visando o fortalecimento de seus argumentos no debate, imprimir estilo próprio de fala e firmar o tom das palavras. Ao destacar Lula em cena de discurso para uma multidão, o livro exemplifica-o como alguém que domina estratégias argumentativas. 


No segundo caso, ao analisar um discurso político-estudantil, o livro mostra dois quadros: um com a imagem do encerramento das Olimpíadas de Moscou, de 1980 e Fidel Castro discursando. Embora os quadros levem o nome de "conexões" (certamente, com o conteúdo), não se vê razão para suas existências porque não se percebe ligação lógica entre eles e o conteúdo.    

                                  

A não ser que o livro pretenda forçar a ligação da temática comunista nos dois quadros com a causa político-estudantil. Se esta for a intenção, não estará fugindo à corriqueira prática esquerdista: fazer com que o território estudantil se torne monopólio do socialismo/comunismo.

Considerações

Não se discorda que Lula e Fidel sejam bons oradores e têm seus nomes na lista de políticos com destaque na oratória. É questionável, porém,  por que justamente eles foram os escolhidos para ilustrar conteúdos nestes livros didáticos. 

Existe pelo menos uma suspeita: embora os livros sejam de Língua Portuguesa, há neles uma clara preferência pelo socialismo constatada nos comentários e na escolha de imagens e textos complementares e/ou ilustrativos. Essa preferência coloca-os em cooperação com iguais tendências ideológicas encontradas em livros de outras disciplinas. 

Com isso, é formada uma rede homogênea de apoio didático em várias disciplinas para afirmação e reafirmação político-ideológica no imaginário do aluno. A intenção velada (e não admitida) é criar, mais do que admiradores, seguidores ideológicos desde a infância. Daí a importância de apresentar com simpatia ícones e/ou figuras ligadas à esquerda brasileira e estrangeira, mas também ao atual governo. 

Ainda mais quando o professor é militante da mesma política e ele mesmo um admirador dessas personalidades. Uma foto ou citação são capazes de oferecer oportunidades para formar a opinião do aluno. Este é um tipo de propaganda que, se escapa da boa moral, é eficiente para fazer com que os alunos se acostumem com nomes, biografias e rostos ligados à ideologia pregada. 


Orley José da Silva, é professor em Goiânia, mestre em letras e linguística (UFG) e mestrando em estudos teológicos (SPRBC).


Nota:
Os livros de Língua Portuguesa fazem parte do catálogo do Plano Nacional do Livro Didático (PNLD), do Ministério da Educação, da 2ª fase do Ensino Fundamental, para o triênio 2014/16. Eles foram distribuídos para escolas públicas ligadas aos governos federal, distrital, estaduais e municipais. O livro do 6º ano, (*) 27447C0L01, atende às crianças de 11 e 12 anos. O livro do 9º ano, (**) 27484C0L01, atende aos adolescentes de 14 e 15 



Anexos com o contexto dos textos e imagens recortados:  








Fidel e Lula são exemplos em livros didáticos do MEC

Lula e Fidel Castro ilustram conteúdos em dois livros didáticos de Língua Portuguesa para o Ensino Fundamental. Lula estampa o conteúdo de "expressão oral" em livro para o 6º ano (*) e Fidel, o conteúdo de "reconstrução dos sentidos do texto" em livro para o 9º ano (**).

No primeiro caso, o aluno aprende a usar estratégias de progressão textual, visando o fortalecimento de seus argumentos no debate, imprimir estilo próprio de fala e firmar o tom das palavras. Ao destacar Lula em cena de discurso para uma multidão, o livro exemplifica-o como alguém que domina estratégias argumentativas. 


No segundo caso, ao analisar um discurso político-estudantil, o livro mostra dois quadros: um com a imagem do encerramento das Olimpíadas de Moscou, de 1980 e Fidel Castro discursando. Embora os quadros levem o nome de "conexões" (certamente, com o conteúdo), não se vê razão para suas existências porque não se percebe ligação lógica entre eles e o conteúdo.    

                                  

A não ser que o livro pretenda forçar a ligação da temática comunista nos dois quadros com a causa político-estudantil. Se esta for a intenção, não estará fugindo à corriqueira prática esquerdista: fazer com que o território estudantil se torne monopólio do socialismo/comunismo.

Considerações

Não se discorda que Lula e Fidel sejam bons oradores e têm seus nomes na lista de políticos com destaque na oratória. É questionável, porém,  por que justamente eles foram os escolhidos para ilustrar conteúdos nestes livros didáticos? 

Existe pelo menos uma suspeita: embora os livros sejam de Língua Portuguesa, há neles uma clara preferência pelo socialismo constatada nos comentários e na escolha de imagens e textos complementares e/ou ilustrativos. Essa preferência coloca-os em cooperação com iguais tendências ideológicas encontradas em livros de outras disciplinas. 

Com isso, é formada uma rede homogênea de apoio didático em várias disciplinas para afirmação e reafirmação político-ideológica no imaginário do aluno. A intenção velada (e não admitida) é criar, mais do que admiradores, seguidores ideológicos desde a infância. Daí a importância de apresentar com simpatia ícones e/ou figuras ligadas à esquerda brasileira e estrangeira, mas também ao atual governo. 

Ainda mais quando o professor é militante da mesma política e ele mesmo um admirador dessas personalidades. Uma foto ou citação são capazes de oferecer oportunidades para formar a opinião do aluno. Este é um tipo de propaganda que, se escapa da boa moral, é eficiente para fazer com que os alunos se acostumem com nomes, biografias e rostos ligados à ideologia pregada. 


Orley José da Silva, é professor em Goiânia, mestre em letras e linguística (UFG) e mestrando em estudos teológicos (SPRBC).


Nota:
Os livros de Língua Portuguesa fazem parte do catálogo do Plano Nacional do Livro Didático (PNLD), do Ministério da Educação, da 2ª fase do Ensino Fundamental, para o triênio 2014/16. Eles foram distribuídos para escolas públicas ligadas aos governos federal, distrital, estaduais e municipais. O livro do 6º ano, (*) 27447C0L01, atende às crianças de 11 e 12 anos. O livro do 9º ano, (**) 27484C0L01, atende aos adolescentes de 14 e 15 



Anexos com o contexto dos textos e imagens recortados:  







domingo, 12 de outubro de 2014

Livro didático apresenta Dirceu e Delúbio lutando por justiça



Um livro didático de Língua Portuguesa para o 6º ano do Ensino Fundamental (*) estampa duas capas de dias diferentes da Folha de S. Paulo, em cujas edições o escândalo do "mensalão" é manchete destacada. O ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, e o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, aparecem como protagonistas das matérias que relatam a luta de ambos para se livrarem das acusações de que teriam desviado dinheiro público. 

                            

A primeira capa é do dia 4 de setembro de 2005 e traz como título: "Liminar impede expulsão de Delúbio". A explicação vem no subtítulo: "Ex-tesoureiro petista recorre à Justiça e obtém decisão provisória que não permite sua exclusão do partido; PT tem até 5 dias para recorrer". Dentro desta reportagem, há outra menor com o título: "E-mails revelam ação do governo sobre fundos". Embora faça referência ao ex-tesoureiro, não há fotografia dele.

                       

A segunda capa é do dia 25 de setembro de 2005 e traz como título: "PT vai pagar por caixa 2, diz Dirceu". O subtítulo tem desabafo, justificativa e acusação de Dirceu ao PT: "No 'pior momento de sua vida', ex-ministro afirma que partido cometeu ilegalidade, será punido pela Justiça e deve desculpas ao país". Na mesma reportagem, há outra menor com o título: "Receita Federal vai investigar 4 partidos". A reportagem é ilustrada com uma fotografia de José Dirceu, em casa, à vontade, com os pés descalços.

As duas matérias jornalísticas apresentam pelo menos dois pontos da principal linha de defesa usada pelo PT desde o início das investigações: minimizar a importância da participação de seus agentes políticos no escândalo; considerar o caixa 2 ilegal, mas de imoralidade apenas relativa, dada a "nobreza" de sua finalidade "revolucionária" para a vida política e social da nação.

Considerações

As capas do jornal foram inseridas no livro pelas autoras como recurso de auxílio didático e pedagógico para o estudo dos conteúdos: gênero jornalistico, expectativa de leitura, discurso direto, discurso indireto e efeito de sentido. 

Não discordo que todos estes conteúdos possam ser explorados e exemplificados a partir dessas matérias jornalisticas. Minha desconfiança é sobre o porquê de escolher justamente este tema e ainda mais de matérias com vieses de simpatia e atenuantes para o crime político e social cometido. 

Como esse livro didático foi publicado em 2012 e distribuído às escolas públicas do país neste ano letivo (2014), por que não se lançou mão de matérias jornalisticas mais recentes, próximas ao desfecho do julgamento e condenação dos réus? 

É verdade que o livro não interpreta as reportagens, apenas dá publicidade a elas. O passo mais longo dado pelas autoras, foi o da escolha, deliberada ou não, dos textos jornalísticos. A interpretação, no caso, fica a cargo do professor e do aluno. 

Neste ponto, pode haver um importante problema. As duas principais teses históricas de defesa do PT para o caso do "mensalão", podem ser cotejadas a partir das reportagens. O aluno de 11 ou 12 anos, não tem maturidade para discernir sobre esta questão que embaraça até adultos. 

Caberá ao professor, então, conduzir o processo de compreensão dos textos de acordo com a sua subjetividade. Caso o professor pertença a mesma linha ideológica defendida nas entrelinhas das reportagens, e não haja nele honestidade intelectual, influenciará o aluno para que também acredite nessas verdades.

Assim, em nossas escolas, à maneira da universidade, poderemos ter crianças completamente subjetivadas pela ideologia oficial, considerando os "mensaleiros" como injustiçados e heróis da nação. 

Aliás, são comuns nos atuais livros didáticos a presença de figuras ligadas ao Governo e à esquerda brasileira e estrangeira. Elas estão lá ilustrando algum conteúdo, como se não trouxessem em si intenção de propaganda. Pode ser que seja para que as crianças e adolescentes escolares se acostumem com as imagens e os nomes relacionados ao poder e a ideologia dominantes. 


Orley José da Silva, é professor em Goiânia, mestre em letras e linguística (UFG) e mestrando em estudos teológicos (SPRBC)


(*) Este livro faz parte do catálogo do Plano Nacional do Livro Didático (PNLD), do Ministério da Educação, da 2ª fase do Ensino Fundamental, para o triênio 2014/16, sob o nº 27447C0L01, e subsidia atualmente o trabalho pedagógico da disciplina de Língua Portuguesa nas escolas públicas pertencentes aos governos federal, distrital, estaduais e municipais. Em escolas seriadas, é utilizado na 6ª série. Nas escolas que adotam o modelo dos Ciclos de Desenvolvimento Humano, é utilizado no agrupamento I do Ciclo III. Em ambos os modelos, o livro serve às crianças de 11 ou 12 anos.


Anexos:
(contexto dos textos recortados)





  

sábado, 11 de outubro de 2014

Livro didático exalta Dilma e deprecia PSDB, Serra e Marina

Um livro didático de Língua Portuguesa para o 6º ano do Ensino Fundamental(*) usa uma charge para comparar a capacidade de decisão da presidente Dilma Rousseff com seus adversários políticos Marina Silva e José Serra. Na imagem em que podem ser vistos os três e um muro, Dilma aparece à esquerda do muro, confiante, desafiadora e bem vestida de vermelho. Marina está em cima do muro, de braços cruzados, com expressão de desânimo e preguiça, roupa descuidada, de cor verde. Serra está à direita vestido em um terno elegante e clássico.  


                           

A charge de Amarildo, publicada na imprensa e em seu blog por ocasião da virada para o 2º turno das eleições presidenciais de 2010, interpreta o posicionamento político dos três candidatos. Marina Silva teve quase 20 milhões votos no 1º turno daquela eleição e passou a ter seu apoio cobiçado por Dilma e Serra. Ela, no entanto, manteve-se neutra e não revelou o voto.  

A afirmação de Serra sobre Marina: "Eu acho que tá mais pra tucano!" tem duplo sentido. O primeiro, que espera seu apoio na eleição. O segundo, classifica a posição indecisa dela a partir da expressão "ainda não!" e no fato de estar cima do muro, parecidos com atitude tucana. E ninguém melhor que um tucano, de acordo com a charge, para identificar alguém com procedimento decisório semelhante.

Esse estigma empregado pelos adversários ao PSDB não tem nada a ver com alguma característica da ave que é símbolo do partido, mas às posições políticas de centro adotadas pela sigla. O partido construiu sua trajetória na linha divisória entre socialismo e liberalismo; conservadorismo e progressismo. 

E não é fácil desvencilhar-se de um estigma não combatido em seu tempo visto que pode adquirir força de verdade. A eleição presidencial deste ano mesmo tem servido para adversários reimprimirem no PSBD a marca da dubiedade. Legítima ou não, ela tem se constituído em desafio de desconstrução discursiva para a campanha de Aécio Neves.  

As roupas dos personagens dizem muito. O vermelho de Dilma, combina com as cores do PT e do comunismo. O verde de Marina, com as cores do seu partido à época, o PV, e a causa ambiental da qual é militante. O terno bem cortado de Serra, inscreve-o como membro da elite econômica e "burguesa", outro estigma que os adversários empregam ao PSDB.

A postura do corpo e seus adereços também marcam posição. Dilma, com aparência de emergente (que guarda no rosto traços da vida parca e de identificação com o povo), cabelos bem cuidados, maquiada, joias, roupa e calçados elegantes, cabeça erguida, determinada, com aparência de gerente ou executiva. Marina, envelhecida, roupa desgastada, cabelos descuidados, sobrancelhas espessas, jeito de quem não superou os trajes e as maneiras da gente simples, vistos socialmente como inadequados para a função que pretende ocupar, cabisbaixa, desanimada, indecisa e de braços cruzados. Serra, embora seja retratado como bem cuidado, elegante e polido, até mesmo pelo gesto de colocar a mão esquerda para trás enquanto conversa, aponta para lugar incerto e há dúvida em seu olhar. 

É interessante observar as coincidências na construção e repetição, pelo meio político, da imagem dos partidos e também dos três principais concorrentes à presidência nas eleições de 2010 e 2014. Esta coincidência alcança até mesmo o candidato Aécio que entrou no lugar de Serra. 

A charge compõe o capítulo 5 do livro, que apresenta as características do gênero textual "Artigo de Opinião". O aluno é orientado a manter-se bem informado acerca do tema que pretende defender, conhecendo, inclusive, os argumentos que sustentam o próprio ponto de vista, bem como as opiniões contrárias. 

Logo no início, apresenta um diálogo com três perguntas e três respostas que parecem frustrar a expectativa das interrogações. O interlocutor é instigado a opinar sobre três mulheres que se destacam: na política, Dilma; na música, Lady Gaga e no esporte, Marta. A primeira pergunta é: "O que você acha de uma mulher na presidência?" A segunda, "Qual sua avaliação sobre o último trabalho de Lady Gaga?" A terceira, "E a Marta, hein? será que ela ainda tem futebol para ser eleita a melhor do mundo?"

Os alunos que estudam com este livro têm entre 11 e 12 anos de idade. As perguntas, principalmente a primeira, exigem conhecimento prévio ampliado e, possivelmente, distante das suas realidades. Ela exige razoáveis conhecimentos político, econômico, social, além de referenciais complexos de comparação. Eles não saberiam comparar, por exemplo, a qualidade do governo presidencial masculino com o feminino. Primeiro, porque Lula, o homem presidente da geração deles, iniciou o 2º mandato quando tinham 3 e 4 anos. Segundo, porque mesmo na idade atual eles ainda não têm maturidade para abstrair as características principais deste governo feminino. 

Sendo assim, cabe ao professor preencher as lacunas de informação faltantes no discurso do aluno (e elas são muitas) para que ele compreenda o assunto. Nesse caso, a visão interpretativa do aluno ficará por conta da subjetividade do professor. E, normalmente, é a visão de mundo apreendida dessa forma em sala de aula que o aluno leva para a vida.

Considerações

A charge publicada no mês de outubro de 2010, em jornais e no blog do Amarildo, representa as tentativas de negociação política de Dilma e Serra para receberem o apoio de Marina em favor de suas candidaturas. Os leitores da época, porque acompanhavam o processo eleitoral, certamente compreenderam sua mensagem política e puderam concordar com ela ou não.

Pois bem. A mesma charge foi inserida no livro didático em dia 31 de janeiro de 2012, com previsão de ser trabalhado em sala de aula em 2014, ano de eleição presidencial. Com a troca de suporte e o distanciamento no tempo, a charge saiu do gênero jornalístico para o didático-pedagógico.

Por mais que se defenda a desideologização automática dos diversos gêneros quando transformados em gêneros de ensino ou de sala de aula, não se pode deixar de considerar que neles ainda permanecem importantes resíduos ideológicos. 

Quando se observa o contexto em que essa charge está inserida, não há como negar sua intenção de formar a opinião do aluno sobre características culturalmente cristalizadas dos três políticos e também do PSDB. 

Embora não sejam ainda eleitores, depois de estudarem esse capítulo do livro que trata da importância de ter opinião, esses alunos se tornam aptos para exercerem sua "criticidade" política com jovens em idade de votar e também com seus pais. Além do mais, essa mesma linha de ideologia política, trabalhada em outros capítulos do mesmo livro e também em outras disciplinas, constrói eleitores ideologicamente replicados para o futuro.

Por que essa charge e não outra em seu lugar para ilustrar o tema do capítulo 5 desse livro? Pode ser que a resposta esteja ligada à coincidência da chegada do livro às escolas públicas em ano de eleição presidencial. 

Um dado a ser observado é que de acordo com o desenho político de 2012, quando o livro foi produzido, esperava-se que em 2014 haveria a repetição da disputa entre os três candidatos de 2010. José Serra ainda era o protagonista no PSDB e Marina lutava para organizar sua Rede Sustentabilidade.

Portanto, estas são ilações possíveis que podem apontar para a existência de doutrinação política e ideológica, cujas sujeitos passivos são crianças de 11 ou 12 anos, pelo menos neste livro didático. 


(*) Este livro faz parte do catálogo do Plano Nacional do Livro Didático (PNLD), do Ministério da Educação, da 2ª fase do Ensino Fundamental, para o triênio 2014/16, sob o nº 27484C0L01, e subsidia atualmente o trabalho pedagógico da disciplina de Língua Portuguesa nas escolas públicas pertencentes aos governos federal, distrital, estaduais e municipais. Em escolas seriadas, é utilizado na 6ª série. Nas escolas que adotam o modelo dos Ciclos de Desenvolvimento Humano, é utilizado no agrupamento I do Ciclo III. Em ambos os modelos, o livro serve às crianças de 11 ou 12 anos.



Orley José da Silva, é professor em Goiânia, mestre em letras e linguística (UFG) e mestrando em estudos teológicos (SPRBC).

Anexos:
(o contexto desta postagem)

  

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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Famílias homossexuais em livro para alfabetização infantil



Este livro é recomendado pelo Ministério da Educação (MEC) e encontra-se em classes de Educação Infantil de todo o país. Inclusive, ele faz parte do grupo de livros destinados ao Programa Nacional para a Alfabetização na Idade Certa (PNAIC). Este que é um programa do Governo Federal em convênio com estados, municípios e universidades para alfabetizar toda criança até os 8 anos de idade.

                                           

De acordo com o texto de apresentação no catálogo Acervos Complementares (anos de 2013/15) do Ministério da Educação, este livro “trata das mudanças atuais nos conceitos de família e da diversidade cultural, religiosa, econômica e social das famílias contemporâneas.” Seguindo esse propósito, a obra apresenta com calculada naturalidade e igualdade de condições 13 arranjos familiares diferentes, dentre eles a família homossexual. 


                                                                         


A beleza artística e a qualidade do papel encontradas no livro impressionam não somente crianças, mas também adultos. A partir da capa, suas folhas lisas e brilhosas abrigam personagens, coisas e lugares criativamente desenhados.
A combinação dos tamanhos e cores das palavras na capa permite subentender a pretensão de grandeza e singularidade deste livro que se autodenomina "das famílias".
As autoras, duas inglesas, usam com propriedade a articulação entre o discurso verbal e o não verbal para a produção dos efeitos de sentido almejados. Elas dão mais ênfase à figura do que à escrita porque seus leitores, os alunos da Educação Infantil em fase de alfabetização, têm mais facilidade para compreender imagens. Desta forma, somente debaixo de algumas gravuras, inscrevem enunciados  breves, objetivos, em linguagem simples e uso consciente dos advérbios de afirmação.

Logo na primeira página, é apresentada uma família cujos membros são o pai, a mãe, uma filha e um filho. Esta família veste e calça conforme os trabalhadores rurais de algumas regiões do país. A postura corporal desleixada, o penteado, as roupas, o espaço em que eles se encontram, os instrumentos de trabalho (pá e regador), podem ser interpretados como indicadores de posição social. Os brinquedos, a bola com o filho e a boneca com a filha, são distintivos de gênero nesse modelo de família. 
                                    
O enunciado que aparece em cima da figura: “Muitos anos atrás, a maioria dos livros sobre famílias eram assim”, e a leitura da imagem, desqualifica e desatualiza este modelo de família. Situa-o, assim, num tempo longínquo e indeterminado, da mesma forma que são distantes e imprecisos o tempo dos contos de fadas. Partindo-se desse pressuposto, é possível conjecturar que as autoras comparam a família tradicional com o ideal romântico do conto de fadas.

Esta suspeita pode ser inferida a partir da afirmação embaixo da mesma figura: "Mas na vida real existem famílias de todo tipo, formato e tamanho." Ou seja, na vida real que escapa ao ideal do tradicionalismo familiar, há, sim, uma diversidade de tipos familiares com o mesmo grau de importância.

Esta ideia subliminar que se apresenta já no início do livro, obedece sua coerência até o final.

A página seguinte mostra a bucólica e aprazível casa da família tradicional: fora do aglomerado urbano, sem prédios para cobrir o sol baixo, cercada com estacas de madeira, flores, jardim, pomar,  cachorro e gato.   

                                                 


Mais adiante, com vestimentas e aspectos urbanos e modernos, duas mulheres cuidam de uma menina; dois homens, de um menino. Na mesma página, um casal tradicional com dois filhos. O que poderia causar estranheza é apresentado com naturalidade e aprovação pelo enunciado: “Algumas crianças têm duas mães ou dois pais.” 

 
É relevante neste livro o esforço para a desconstruir o conceito de família nuclear: pai, mãe e filhos. Isto levando-se em consideração que seu público é composto por crianças de 7 e 8 anos, cujas famílias são majoritariamente tradicionais. 

Trata-se de uma atitude deliberada de contradizer os valores morais dos núcleos familiares dos alunos. E esta pode ser considerada uma atitude reprovável porque  a escola deixa de respeitar a bagagem cultural trazida de casa pelo aluno. 


                   
É motivo de maior preocupação quando se trata de livro que faz parte da coleção do Plano Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (PNAIC). O que se questiona neste importante programa de alfabetização é o porquê de se inserir nele a desconstrução da família tradicional para crianças ainda na infância, oriundas de famílias cristãs, notadamente as dos ramos romano, ortodoxo e protestante.
O livro, ao esquecer a Constituição, isto com a finalidade de normalizar novos modelos de família para crianças em fase de formação psicológica e física, trai a confiança da lei. Mais ainda: trai também a confiança dos cidadãos que vivem debaixo dessa Constituição porque prepara os filhos para burlarem o paradigma familiar dos pais.


Art. 226, da Constituição da República Federativa do Brasil (1988)

A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado.
§ 1º O casamento é civil e gratuita a celebração.
§ 2º O casamento religioso tem efeito civil, nos termos da lei.
§ 3º Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento.
§ 4º Entende-se, também, como entidade familiar a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes.
§ 5º Os direitos e deveres referentes à sociedade conjugal são exercidos igualmente pelo homem e pela mulher.
§ 6º O casamento civil pode ser dissolvido pelo divórcio, após prévia separação judicial por mais de um ano nos casos expressos em lei, ou comprovada separação de fato por mais de dois anos.
§ 7º Fundado nos princípios da dignidade da pessoa humana e da paternidade responsável, o planejamento familiar é livre decisão do casal, competindo ao Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais ou privadas.
§ 8º O Estado assegurará a assistência à família na pessoa de cada um dos que a integram, criando mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas relações.

        

Estas duas páginas do livro (acima e abaixo) apresentam molduras que mostram o estado de humor das diferentes famílias. As duas famílias homoafetivas são retratadas em ambiente próspero e harmonioso. Há tranquilidade e segurança em suas fisionomias. As crianças sentem-se bem e seguras. Os estados de pobreza, ansiedade, tristeza, braveza, rispidez e mal humor ficam por conta de outros arranjos familiares, principalmente a família tradicional. 

A escolha da maneira de representar pessoas ou coisas por meio da escrita ou da imagem, não pode ser considerada desprovida de intencionalidade. Quando se fala ou desenha pessoas ou coisas, expressa-se opinião particular ou coletiva acerca do objeto. Entra-se, então, no campo da subjetividade... O que se depreende com estes desenhos são o aspecto dedutivo (como recurso de convencimento) e o favorecimento implícito das duas famílias homoafetivas, em relação às demais. Estes dados não podem ser desprezados porque a criança consegue perfeitamente extrair das imagens os pressupostos  estabelecidos intencionalmente.



Um projeto contra a “homofobia” na escola?

Engana-se quem considere o ensino da orientação homossexual na educação básica, tomada como medida padrão de sexualidade a ser ensinado, seja adequada ao combate do preconceito contra o homossexual na escola. Ainda mais quando este ensino sistemático, conduzido pelo Estado, não é antes debatido com as famílias dos alunos, com os diretores e professores das escolas.
Se, por um lado, a discriminação de pessoas por causa da opção homossexual não deve ser admitida, por outro lado, o Estado precisa respeitar as famílias tradicionais dos alunos, sobretudo as que pertencem ao segmento religioso cristão. Nesse sentido, não se deve utilizar a rede de ensino público para estimular crianças ao comportamento homossexual através de material didático.  As escolas devem ser espaços neutros com respeito a este assunto, principalmente quando o público é infantil e juvenil.
Ensinar uma criança a respeitar as diferenças individuais é muito diferente de orientá-la para uma determinada compreensão ou prática. Embora os valores do respeito e da solidariedade comecem a se estabelecer em casa, a escola exerce importante papel complementar à família, quando ensina ao aluno que é preciso respeitar quem é negro, albino, sarará, baixinho, gordinho, feio, orelhudo, magricelo, tímido; assim como quem se apresenta homossexual, religioso, ateu, etc. Mas em nenhum momento deve haver atenção especial para A ou B. 
A valorização do respeito às diferenças, limites e condições de cada ser humano, independe de suas particularidades. Qualquer "política" que destoe disso significa favorecer uns em prejuízo dos outros, seja por preferência de condição física, crença, comportamento ou ideologia.

Considerações


Os movimentos organizados de defesa do homossexualismo exercem influência nas políticas educacionais do MEC. Eles agiram estrategicamente ao inserirem nos livros didáticos de algumas disciplinas os temas relacionados ao comportamento sexual e a configuração familiar. Educadores e pais que discordam dessas ações vêm denunciando a intenção desses grupos de doutrinar crianças e jovens nas principais fases de desenvolvimento psíquico e corporal.


Segundo essas denúncias, as propostas que teriam o objetivo de combater o “preconceito” (leia-se: opinião contrária) contra o homossexual na escola, acabará produzindo uma geração de pessoas sem definição clara de padrões para o comportamento sexual.  


É bom ressaltar que as novas concepções de gênero ainda não possuem embasamento científico suficiente para levá-las à categoria de matéria de ensino escolar. Existe muito mais apelo político e ideológico por trás dos movimentos que se engajam nessas causas, inclusive acadêmicos, do que conhecimento empírico.

Tendo em vista essa nova realidade da escola, os pais precisam acompanhar mais cuidadosamente o conteúdo moral e cultural transmitido aos seus filhos. A responsabilidade de estabelecer as bases dos padrões morais, religiosos e culturais para os filhos é da família e não do Estado. Ainda mais quando o assunto é a orientação sexual porque há o risco de ensinar às crianças e aos jovens conceitos equivocados sobre o assunto.


Sendo assim, é de estranhar a insistência do Estado em inserir na grade curricular da escola pública temas carregados de controvérsia e carentes de estudos aprofundados e conclusivos. A não ser que a intenção do Estado seja retirar da família a autoridade sobre a formação do caráter pela consequente educação moral dos seus filhos.


Orley José da Silva, é professor em Goiânia, mestre em letras e linguística (UFG) e mestrando em estudos teológicos (SPRBC).



    



A quem interessa o desperdício público de livros didáticos?

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